Consumo de produtos sem glúten cresce no país


É cada vez mais comum ver pacientes aderindo à dieta sem glúten. Essa é uma prática que vem ganhando notoriedade desde que o glúten foi associado ao aparecimento de algumas doenças autoimunes e à descrição do aumento da permeabilidade intestinal. A pergunta chave é: quem se beneficia da dieta sem glúten? Devemos retirar o glúten de todos?



Portadores de doença celíaca

A doença celíaca é uma doença imunomediada e tem como gatilho o glúten. Todos os pacientes com doença celíaca devem seguir uma dieta sem glúten rigorosamente. Não há nenhuma quantidade de ingesta de glúten segura neste grupo de pacientes e é imperativo que o paciente siga a dieta. Especial atenção deve ser dada à contaminação dos alimentos, especialmente quando paciente come em restaurantes onde pode haver contaminação e desencadear descompensação da doença. Os pacientes celíacos que não aderem à dieta sem glúten estão sob risco de desenvolver deficiências nutricionais e desenvolvimento de um tipo de linfoma intestinal agressivo (Linfoma EATL).



Intolerantes ao glúten

Este grupo de pacientes tem sintomas gastrointestinais como distensão abdominal e flatulência quando ingerem alimentos com glúten, porém não possuem as alterações que definem a doença celíaca como os autoanticorpos e atrofia vilositária. Não há deficiências nutricionais e nem risco de desenvolvimento de linfoma ou outras malignidades. Estes pacientes geralmente relatam sintomas com a ingesta de outros grupos de alimentos como laticíneos e outros sacarídeos. Pode haver sobreposição com a síndrome do intestino irritável e será necessária individualização do tratamento e dieta para atingir os melhores resultados.



População geral

Não existe evidência científica adequada que justifique a retirada de glúten para a população geral. Há relatos de mudança da microbiota, mas não sabemos até que ponto essa mudança traria algum benefício para a saúde geral do indivíduo. Apesar de sabermos que o glúten aumenta a permeabilidade intestinal, não sabemos ao certo se haveria uma redução efetiva da incidência de doenças autoimunes ou inflamação sistêmica. O risco de se excluir o glúten da dieta parece exceder os benefícios já que por haver uma restrição alimentar importante, poderíamos desencadear alterações nutricionais significativas na população.


Portanto, recomendo que todos os pacientes que relatam sintomas gastrointestinais com a ingesta do glúten sejam submetidos ao rastreio da doença celíaca e avaliado se há algum grau de intolerância alimentar, podendo assim ser realizada individualização do tratamento. Não recomendo restrição ao glúten para a população geral.